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Flip: professora negra emociona Lázaro Ramos em debate sobre racismo

Ator participou de mesa na Flipinha com a jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques

Paraty – Numa mesa surpreendente e recheada de momentos emocionantes, o protagonismo negro deu o tom na manhã de sexta-feira da Flipinha, o braço infanto-juvenil da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O ator Lázaro Ramos e a jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques se reuniram, sob o tema “A pele que habito”, para tratar dos ecos do processo de colonização no Brasil, o privilégio dos brancos no país e a resistência dos povos escravizados. Ao final, um senhora da plateia foi aplaudida de pé ao ser convidada por Lázaro a contar sua história de luta no palco. Diva Guimarães, de 77 anos, comoveu o público que lotou a Tenda da Praça, espaço da Flip com 700 lugares.

Para tratar do tema, Lázaro Ramos recordou sua própria trajetória. Ele contou que, na adolescência, ainda não percebera a dimensão do problema racial que enfrentaria no futuro. A estrutura familiar e a educação proporcionada pelos pais teriam o feito viver numa “bolha”. Porém, a situação começou a mudar quando chegou ao Rio de Janeiro:

— Percebi que, quando entrava em restaurantes, era o único negro, e nem mesmo podia falar sobre aquilo. Foi quando iniciei minha reflexão sobre meu ser negro.

No entanto, o ator, que está lançando seu livro “Na minha pele” (Companhia das Letras), enfatizou que a construção de sua identidade racial não se moldou apenas por situações de sofrimento:

— A descoberta de ser negro não foi apenas em momentos de dor, foi também em momentos de prazer, como o desfile do Ile-ayê. Me reconheci nos lugares de beleza e encantamento que também temos.

Por sua vez, a portuguesa Joana Gorjão Henriques, autora branca do livro “Racismo em português” (Tinta da China), ressaltou o fato de o racismo e os males do colonialismo de Portugal serem ainda pouco problematizados. Ela ressaltou que a história ensinada nas escolas ainda se prende à visão do processo como “o descobrimento” e acaba velando a violência extrema que caracteriza essa passagem histórica.

— A ideia é derrubar o mito de Portugal como um bom colonizador, e ouvir o outro lado da história, a narrativa da África sobre o colonialismo, para verificar o quanto violento foi esse processo. Os brancos portugueses são os grandes criadores do racismo — disse Joana.

A jornalista ressaltou que ainda não é ensinado que Portugal foi o maior escravizador do mundo com 5 milhões de negros arrancados do continente africano, enquanto a Grã-Bretanha, o segundo maior, transportou a metade disso. Joana ressaltou ainda seu lugar de branca como um privilégio e a “branquitude” como fator decisivo para ocupar certas posições:

— Não tive problemas em me sentir representada nos livros de História, não precisei pensar um série de processos dolorosos para realizar meu trabalho e me entender como pessoa.

Território Flip/Flipinha: A pele que habito (trecho)

O momento mais emocionante da #Flip2017 veio pela voz do público no Território Flip/Flipinha: “A pele que habito”. Com a palavra, Diva Guimarães:

Publicado por Flip – Festa Literária Internacional de Paraty em Sexta, 28 de julho de 2017

Nesse simbólico encontro entre Lisboa e Salvador, Lázaro provocou a plateia:

— Tô muito feliz de ver essa plateia cheia de brancos — disse, arrancando risadas e aplausos. — A questão do racismo não é só uma questão de negros. Não é, não pode ser e não deve ser.

Segundo o ator, é necessário que se crie mais diálogo para que as opressões e preconceitos do dia-a-dia parem realmente de avançar:

— As pessoas falam que é “mimimi”, mas não têm noção de quanto é doloroso ser silenciado só por ter a tez mais escura. É incômodo quando uma feminista vem me falar do meu lugar privilegiado de homem. Mas eu faço esforço para escutar, e isso tem que existir para todos, negros, homens. Vejo que as pessoas não se escutam mais. Quando são incomodadas, começam a criar argumentos para silenciar o outro. Não devemos dar respostas, as perguntas que estabelecem o diálogo devem vir à frente.

Questionado sobre se vê algum avanço político dos negros, Lázaro foi taxativo:

— Não vejo nenhum avanço na política partidária em relação ao racismo. Vejo um empoderamento estético, mais negros na universidade, criando novas narrativas, mas vejo que são iniciativas da sociedade civil, não da política partidária.

Lázaro acrescentou que uma família estruturada, investimento em educação e estabelecer relações afetuosas com o outro são a chave para a mudança. Ao ser perguntado se relações interraciais podem acabar favorecendo um embranquecimento do povo negro, Lázaro afirmou não crer que isso possa ser prejudicial:

— Eu não consigo politizar minha relação afetiva, é somente amor. Agora, respeitar e amar a sua mulher, isso sim é político.

SENHORA DA PLATEIA ROUBA A CENA

Mais para o fim, durante as perguntas da plateia, uma senhora negra de cabelos brancos perfeitamente trançados levantou e roubou a cena. Diva Guimarães, professora aposentada, emocionou ao contar sua história de vida marcada pelo racismo (veja no vídeo acima).

— Eu também estou muito feliz por ver a maioria de brancos aqui nessa plateia. No entanto, a gente teve uma libertação que não existe até hoje — afirmou a professora de 77 anos.

Nascida em Serra Morena, no interior do Paraná, Diva também ressaltou a importância da educação na sua vida:

— Fui a primeira pessoa da minha família a ter acesso a escola. Isso fez com que despertasse cedo para a minha condição. Minha mãe lavava roupa para outras pessoas em troca de material escolar.

No entanto, seu processo de educação também foi marcado por momentos dolorosos.

— Numa das escolas onde estudei, as freiras contavam que Deus teria feito um rio por onde todos teriam que atravessar. Os primeiros, mais fortes e mais inteligentes, ao passarem por esse rio teriam perdido a cor tornando-se o que hoje são os bancos. Já nós, os negros, seríamos burros e preguiçosos, por isso teríamos atravessado quando restava apenas a lama do rio. Por isso é que apenas as nossas palmas das mãos e dos pés seriam claros.

Lázaro participou da mesa ‘A pele que habito’ com a portuguesa Joana Gorjão Henriques. Foto: Ana Branco / Agência O Globo

O ator Lázaro Ramos, ele próprio emocionado, a convidou para receber de presente em primeira mão seu livro na sessão de autógrafos. Ao fim da mesa, Diva foi cercada por pessoas pedindo abraços, fotos e até autógrafos. Um dos emocionados com o depoimento da senhora era César William, bombeiro negro que trabalha no apoio ao evento há 9 anos.

— Nunca vi algo assim na Flip. Você falou tudo o que eu sempre quis falar. Eu ganhei o dia. Sinto que hoje a questão do racismo está mais latente, a escravidão rompeu as barreiras e todos estão vivendo mais precarizados — afirmou César, que fez questão de buscar o filho para conhecer a senhora-sensação da Flip 2017.

Formada em Educação Física, Diva era atleta quando jovem, mas afirmou que a cor da sua pele impediu que seguisse carreira. A professora vive em Curitiba e disse não ter tido filhos por opção: não queria que eles passassem pelo sofrimento que ela passou. Diva veio pela primeira vez à Flip neste ano.

— Como a gente diz lá no sul, estou “no bico do urubu”, já tenho idade, então resolvi vir porque não podia perder essa festa — disse “Dona Diva”, como passou a ser chamada pelo público. — Sou apaixonada por leitura, por Jorge Amado e pelo escritor negro Cruz e Sousa.

A professora disse ter ficado inspirada pela palestra de abertura de Lázaro Ramos, e pela mesa da escritora ruandense Scholastique Mukasonga. Ao se ver representada na Flip deste ano, criou coragem e pediu a voz para contar sua história:

— Eu tinha que falar. Em nome do povo negro e da hipocrisia que existe no brasileiro que afirma não existe racismo no país.

* Estagiário, sob supervisão de André Miranda

Lázaro Ramos se emociona ao abraçar a professora de educação física Diva Guimarães, de 77 anos. Foto: Monica Imbuzeiro / Agência O Globo

Fonte: Jan Niklas, em O Globo

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