Home / Direitos Humanos / Os meus olhos não são motivos de pecados. aranque os seus: eles são motivos de tristezas

Os meus olhos não são motivos de pecados. aranque os seus: eles são motivos de tristezas

Temos que ter apoio para olharmos para frente

liz1Quero manter uma rotina de postar a cada sexta-feira uma reflexão. Desejo nesse momento começar a escrever pequenas crônicas sobre cotidiano e racismo, a partir do meu vivido, visto e lido. Talvez deseje falar com a minha emoção, ou melhor, com o meu coração.

Na verdade, começo falando da minha experiência neste último mês de outubro.  Passei quase trinta dias com um tijolo no coração, na realidade é uma metáfora. Comecei a me sentir muito triste após uma reunião com meu chefe: uma figura de excelência, mas que diante de seus medos e conflitos, também pode cometer erros, mas não inverdades pela bondade que nele habita.

O importante aqui é socializar e partilhar emoções podendo colaborar com as pessoas e com os conflitos que possivelmente vivenciam no espaço de trabalho.

Na verdade, a situação vivenciada por mim virou um tijolotijolo1 porque recordei de outras já vividas, e, recordar é colocar no coração de novo. Assim, eu tinha em segundos, várias histórias tristes que envolviam classismos, racismo e sexismos lembradas. A memória do meu corpo negro o fez sofrer, de novo, dores tão antigas que adoeci com sintomas de bursites, entre outros: os braços e as pernas travaram. Sensações físicas que há anos não sentia. Meu coração batia fora de compasso.

Nessa conversa, desse mês que passou, uma coisa me tocou: tornar vitima em vitimários é uma prática constante nas instituições quando das disputas pelo poder e status. Brancos e negros passam por isso, todavia, os pobres: mulheres e negros são os mais vulneráveis ao que chamamos, hoje, também de assedio moral.

Do que eu me lembrei?

Lembrei-me de várias situações vivenciadas no espaço de trabalho. Trago aqui a experiência que tem sido recorrente em minha memória, ocorrida entre 2006-2007. Trabalhava na antiga COGEST na Secretaria Municipal de Saúde da Cidade de São Paulo. Tinha uma chefa imediata que me tratava muito mal, as vezes reconhecia a qualidade do meu trabalho, mas sempre tinha uma crítica. Nunca me esqueci quando ela tentou desqualificar a minha produção dizendo que minha redação era recheada de palavras rebuscadas. Se apegou de tal  forma à palavra démarche que não conseguiu ver as lacunas existentes no projeto. Somente exigia a substituição da palavra démarche. Essa informação rolou entre os colegas. Particularmente, até gostei e atestei: ela era uma figura verdadeiramente medíocre.

Os seus gestos e comportamentos eram sempre voltados para desqualificar as minhas ideias e propostas, para logo apropriar-se delas e/ou creditá-las a outros.

Entre tantas situações uma me deixou com raiva, o fato de sua  arrogância impedir uma colega de trabalho de comparecer à entrevista de seleção para cursar o mestrado.  Essa colega de trabalho era uma mulher negra. Hoje eu a entendo: ela, com certeza, ficou com um tijolo no peito. Ficou sem jeito, sem chão. Não adiantou naquele momento animá-la e dizer:

___Vá falta apenas à entrevista.

Mas ela não foi.

Entretanto, a vida dá suas guinadas: certa feita precisei ajudar essa chefa pessoalmente, numa situação, em que ela passou por extrema violência.

As pessoas me perguntaram por que a ajudou?

Antes pela minha dignidade. Aprendi desde cedo que temos um compromisso moral com todas as pessoas dessa terra. Independente de qualquer coisa ela era uma mulher em situação de vulnerabilidade.  Entretanto, não precisamos transformar todas as pessoas em amigas, afinal compromisso moral não está ligado à sentimentos de amizade por uns ou por outros.

Após esse episódio a relação ficou mais amena.

____ Peço desculpas por algumas dificuldades que tivemos. Sentia-me, mais a vontade com a sua amiga. Ela tem o olhar mais doce. Você tem os olhos fortes. Sentia medo, não sei, acho seu olhar estranho. Penso ser uma coisa cultural.

Achei aquela conversa esquisita.  Na verdade, uma conversa de cerca Lourenço. Mas respondi.

____ O fato de cultivar a humildade não significa que possa aceitar ser subserviente. Subserviência é pecado mortal.  Como sou temente a Deus penso que devemos curvar nosso olhar apenas diante Dele.  Você é nipo-brasleira, talvez seja algo cultural. Na sua cultura as mulheres podem ser mais submissas.  Mas se me permite, vou lhe dizer mais uma coisa, não existe pecado em meus olhos. Sabe doutora o que vou lhe dizer é bíblico: arranque os teus olhos.

olho1“Se teu olho te leva ao pecado, arranca-o e lança-o longe de ti: é melhor para ti entrares na vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo da geena.” Envagelho segundo São Mateus

Eu e minha amiga somos negras, mas ela gostava mais da negra que ela conseguiu humilhar e com grito paralisar, a ponto de fazê-la desistir de ir para entrevista do mestrado.

Na verdade, com aquela conversa de cerca Lourenço ela objetivava  me informar que eu era uma farsa, na sua visão. Uma doutora de araque por essa razão sempre questionava acerca de minha formação.

___Onde você fez seu doutorado?

Essa senhora na acreditava na minha existência. Assim como um professor, também presente, nesses dias em minhas recordações me dissera uma vez:

____ Não acredito em nada do que você fala. Na verdade, não acredito nessa sua felicidade.

Ou mesmo quando chego a um novo departamento da Secretaria de Saúde e uma colega me relata o que ouvira de uma das técnicas da mesma equipe:

_____ Não confio nessa mulher. Ela é excessivamente educada.

Nos negros fazemos parte do imaginário da sociedade brasileira no lugar do desprezo, e, nele não cabe inteligência, capacidade, trabalho, eficácia, eficiência, honestidade, benignidade, verdade. Na realidade, não pode haver negros e negras felizes, tampouco educados(as).

Na cabeça dessa chefa e no imaginário de alguns brasileiros como William Waack essas virtudes são atributos dos nipos-brasileiros.

Somos sujeitos bem ajustados às categorias de Erving Goffman: sujeitos desacreditados ou desacreditáveis. Desacreditáveis, isto é, acreditam que suas características não são conhecidas pelos presentes nem imediatamente perceptíveis por eles. Já desacreditados acreditam que suas características distintivas já são conhecidas ou são imediatamente evidentes. Ver Goffman (1975).

Nós negros e negras por vezes nos acreditamos desacreditados, e, ao nos vermos com os olhos dos outros, nos comportamos como os chefes, as chefas, como os brancos nos vêem e onde desejam nos colocar.

Quando fugimos das brancas expectativas, podemos ser linchados fisicamente, moralmente, intelectualmente e espiritualmente. Algumas pessoas ficam tão contrariadas que se contaminam com sua pulsão de morte. Assim, dizem:

____ Está vendo como são os negros? Fazem tudo para nos irritar. Tudo é racismo. Mas olhem como eles são?

O ponto crucial dessa história é a tentativa de culpabilizar os atos racistas eivados de soberba e ódio.  É esse ódio que nos imobiliza e nos adoece emocionalmente e espiritualmente. É esse ódio que não pode ser introjetado em nosso corpo e alma.

Outra lição: não podemos lembrar de histórias tristes sozinhas (os), pois podemos construir muralhas em nosso peito. Às vezes as lembranças negativas podem reforçar as situações presentes. Temos que ter apoio para olharmos para frente. Senti medo de não conseguir tirar o tijolo do meu peito. Procurei orientação psicológica e espiritual: rezei, pedi a Virgem Maria, ao glorioso São José, a São Miguel Arcanjo. Pedi a uma preta velha que é minha amiga: mãe Maria do Congo. Foi ela que me disse:

____ Não traga o passado para seu corpo. Não fique parada nessa história. Senão você não vai para frente.

Todavia, quase um mês de depois recebi um email tão carinhoso  que me forçou a recordar das coisas positivas dos afetos sinceros e verdadeiros

Querida Bete,

Saudades!

temos sentido muito sua falta, a todo momento falamos em você nos almoços, nas reuniõezinhas regadas a vinho, entre outras oportunidades. Sinto não poder estar perto para lhe dar um abraço pessoalmente e a solidariedade amiga que faz bem nesses momentos. Mas, mesmo de longe, sinta-se abraçada fortemente.

Ao socializar a minha experiência ressignifico a história e as  estórias com todas polissemias. Mas somente pude ter um desfecho feliz em razão das respostas amorosas.

Aos poucos com muito amor e carinho o meu tijolo foi saindo. Fui dando lugar às lembranças mais doces.  Percebi, então, que aquele 18 de outubro de 2017 não teria tido tanta importância sem o peso das lembranças passadas. Sem as recordações negativas.

A solidariedade é um santo remédio para tudo, podendo nos auxiliar na superação dos sofrimentos individuais e coletivos. O recado é ter a humildade de não sofrermos sozinhos.

Outro grande ganho dessa história é ter experimentado esse tijolo, e, poder ficar atenta aos possíveis tijolos daqueles que me rodeiam no âmbito público ou privado, para jamais faltar com apoio.

Fonte Portal Afro

Só no Portal Áfricas, “Palavras ganham voz”

x

Check Also

O pecado da discriminação racial

    CartaCapital |  Hamdullah Ozturk  Quem ...