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Roseli da Silva, 40 anos depois da cena de racismo em Mogi

ELIANE JOSÉ
– Mas já faz 40 anos?

– No domingo.

Por Eliane Jose Do O Diário

– É mesmo? Nem me lembrava…

Roseli de Souza tinha 20 anos, quando na porta do Clube de Campo de Mogi das Cruzes, ao lado das irmãs de olhos azuis, alguém disse: “Ela não pode entrar”. Mas, por quê? Alguém responde que era porque ela não era associada. As irmãs não entenderam, porque desde os sete anos, quando ela passou a fazer parte da família do empresário João Manoel dos Reis, elas estavam acostumadas a frequentar as dependências do Clube. As irmãs e uma amiga, Regina Origoshi, insistiram para que Roseli entrasse. Um dos seguranças, diz ela, “teve a coragem de dizer: É por que ela é preta”. Elas voltaram para a casa, o pai perguntou se o baile não estava bom, e logo ficou sabendo a verdade. Ele foi ao Clube, esbravejou, lembrou a Lei Afonso Arinos. Desse episódio, uma das afirmações dele, não saiu mais da lembrança de Roseli, quando diretores pediram desculpas ao português enraivecido e disseram que ela poderia entrar no baile: “Quer dizer que porque ela é minha filha, agora ela ficou branca, pode entrar? Não, ela continua preta, não vai mudar de cor”.

Esse diálogo faz 40 anos. João Manoel dos Reis foi à Delegacia de Polícia e registrou a queixa por racismo, que ficaria conhecida como a primeira ocorrida em Mogi das Cruzes.

Na tarde de sexta-feira, quando procurada por O Diário para contar essa história, que destaca a capa da nossa edição de 3 de dezembro de 1977, Roseli relembrou detalhes que cercam a denúncia, que não foi à frente após uma retratação pública, e serviu para ela entender o que até os 20 anos, não tinha a percepção para realmente compreender. “O que aconteceu, hoje, está resolvido, mas, na época, me mostrou que eu era diferente por ser negra, e me fortaleceu de uma maneira tão grande, que devo o que construí a isso tudo”.

A construção a que se refere Roseli é uma bem-sucedida carreira no Magistério, onde trabalhou até a aposentadoria, como diretora de escola, e a família constituída por três filhos de sangue e dois filhos do coração, assim como ela é para João Manoel dos Reis e a mulher dele, Meire.

Ao pai, hoje aos 84 anos, ela dedica atenção especial. Foi ele quem disse que outras cenas semelhantes viriam pela frente. E como vieram. Na sexta-feira, mesmo dia que concedeu essa entrevista, ela estava entrando no apartamento onde mora com a família e uma visitante perguntou se ela trabalhava no local. “Isso, quando não achavam que eu era amante de alguém e, por isso, morava num edifício que não é de alto padrão, mas onde a maioria é branca”, conta, mas sem ranço: “Isso não é nada diante do quanto de preconceito os negros enfrentam e ainda vão continuar enfrentando”. Para ela, o racismo de 40 anos atrás amenizou, mas persiste entre muitas pessoas que “não suportam conviver com um negro”

Conheça um pouco da história de Roseli, que não deu nenhuma entrevista quando a denúncia feita pela família Reis tornou-se conhecida como a primeira por racismo, em Mogi:

O Diário tem uma coluna que mostra o que aconteceu em Mogi há 40 anos, e a manchete de domingo é a primeira queixa de racismo feita contra o Clube de Campo.
Mas já faz 40 anos?

No domingo.
É mesmo? Nem me lembrava. O que aconteceu foi muito chocante, e está bem resolvido, mas imagine, quando nós íamos entrar no Clube, para um baile, eu, com as minhas irmãs loiras e de olhos azuis. Então me disseram: você não pode entrar. A Rita (Reis) não se conformou, e a nossa amiga Regina (Orighoshi) ficou muito constrangida, alguém disse que era porque eu não era associada. O problema é que sempre eu estava com elas no Clube. Então, um outro alguém, falou: É porque ela é preta (a denominação usual daqueles tempos). Quando falaram isso, nós fomos embora.

E então?
Fomos para a casa e o meu pai, perguntou: “o baile estava ruim, nem demoraram”, e ele ficou perguntando, e fomos contando. Mas ele é um português que quando fica nervoso, já viu, né?. Ele voltou para o Clube, para reclamar. Aí, foi uma grande confusão.

E o que aconteceu?
Eles queriam que eu entrasse, mas ele falou: só porque ela é minha filha, ela ficou branca. Não, ela não vai mudar de cor, e citou a Lei Afonso Arinos, que previa o crime de racismo, e foi no outro dia para a Delegacia, fazer o registro. Foi uma confusão, muitos amigos ficaram indignados, escreveram uma carta no jornal, que disse que era o primeiro caso de racismo registrado em Mogi. Meu pai disse para eu não dar entrevista. O Clube de Campo ficou fechado por uns dias, por causa da confusão. E um dia, todos da diretoria foram lá em casa, pedir desculpas. Quando chegaram, quiseram saber, quem era ‘o pivô do crime’, e era eu, mas eu confesso que não entendia muito bem, porque desde criança, fui criada como sendo da família, eu não me reconhecia como negra. Eu estudei no Washington Luís, tive muitas amizades, convivi com amigas de famílias japonesas. Só depois é que foi caindo a ficha.

A senhora mudou após esse episódio?
Tudo isso me mostrou que eu era diferente, eu fiquei muito triste, e o meu pai me dizia, se prepara porque isso vai acontecer muitas vezes na sua vida. Devo tudo a ele, que sempre falava que eu tinha uma chance, que era estudar. E eu devo o que sou a ele, porque eu quase desisti de estudar, mas cheguei ao Magistério, fiz um concurso, passei, e depois de alguns anos, uma amiga, a Maria Eugênia Focchi de Araújo, me contou sobre um concurso para diretora de escola. Ela me incentivou a participar, eu não queria, ela falou: se inscreve. Eu não queria mandar em ninguém, sabia que teria problemas por ser negra, mas, me inscrevi, eram dez vagas, passei em terceiro lugar.

E sentia preconceito, quando era diretora?
Eu comecei a sentir que outras professoras negras iam para a minha escola (risos) e insistia muito com os alunos, dizia que quem quer ser alguém, tem de estudar, tem de aprender, tem que saber das coisas. Eu dizia, dentro do portão da escola eram todos iguais, eu os defendia, mas quando eles colocassem o pé para fora, não. Encontro muitos ex-alunos que não se esqueceram do que eu dizia. Eu sempre falei e acredito na força da educação. Qualquer um pode ser o presidente da República, mas tem de estudar, se superar.

E voltou ao Clube. É sócia?
Sabe que não. Eles me deram uma carteirinha vitalícia, mas eu não me sentia mais à vontade por saber que eles não me queriam lá. Só há alguns anos, quando recebi um prêmio de destaque na educação, pus os pés lá, e, aí, me senti um pouco vingada. As pessoas acham que só por ser negro, a pessoa tem uma posição inferior, e isso é um assunto muito difícil, porque é algo interno, eu tenho estudado mais sobre esse assunto, sobre a África, de onde vieram os povos escravizados. Entre esses negros, que vieram, muitos eram príncipes e reis em suas terras. Eu me casei com um bom homem, um homem branco, e às vezes penso, que inconscientemente, eu queria que os meus filhos não nascessem negros, para não sofrerem como eu. Mas, eles sabem que são negros, todos estudaram, o mais novo está fazendo pós-graduação em Arquitetura na USP, e eu ensinei a eles que a educação é um meio para que as pessoas sejam o que elas quiserem ser.

Como chegou à família Reis?
A minha mãe, Maria Severina, era empregada deles e morreu após um infarto, dentro de casa. Eu fiquei órfã, com 7 anos. Meu pai de sangue ficou com o meu irmão, que eu nunca mais encontrei, e tive medo de procurar. Meu pai era de muita confusão, bebia. Então, o meu pai (João Reis) e a dona Meire, me criaram.

E as suas irmãs, como a receberam?
A mais velha, Adriana, sentiu mais a minha presença, as mais novas, não, porque quando estavam crescendo, eu já vivia na mesma casa. Mas, outro dia, 50 anos depois, ela me pediu desculpas, por qualquer coisa que tivesse feito no passado. E, eu disse já se foram 50 anos. O passado é passado, e eu a compreendo, porque eu era uma pessoa que não estava nos planos da família.

Nesses 40 anos, o preconceito reduziu?
Um pouco sim, mas ainda é muito forte, e nem vai acabar. Não vou ver isso acabar nessa vida. É uma coisa que eu não sei explicar, tem pessoa que tem verdadeiro horror, tem repulsa contra o negro, tem gente que não quer conviver com o negro. Mas, há mudanças. Meus filhos, por exemplo, todos estudaram, dois são músicos, um arquiteto. Falaram hoje da Mariana (de Souza Ferraz de Silva) na TV Diário. Ela é reconhecida pelo talento que tem, ela vai cantar em Luís Carlos (na abertura da decoração natalina, realizada na sexta-feira). São crianças bem resolvidas que sabem que são negros. Porém, eles são uma minoria, a maioria dos negros é excluída. Eu tive um câncer de mama, e estou me recuperando para a vida, estou me dedicando à ação social, me tornei espírita. Eu gostaria de nascer de novo, negra, e me sentir como quando eu viajei para o Exterior. Em outros países, e até mesmo nos Estados Unidos, eu não sentia o olhar diferente das outras pessoas só porque eu sou negra. No Brasil, o preconceito é muito presente.

O que faz hoje?
Já me aposentei, e trabalho agora com um grupo formado por promotoras legais populares, que empoderam as mulheres vítimas de violência, em Itaquaquecetuba. Fazemos cursos e aprendemos como orientar essas mulheres, quando elas mais precisam. É um trabalho social e político, mas sem ser partidário. Nosso trabalho é de defesa dos direitos da mulher, mostramos a força da Lei Maria da Penha a elas.

A senhora foi candidata a vereadora em Mogi? Pretende voltar à política?
Fui, pelo PV, foi uma experiência boa, tive 700 votos, voltei a comunidades onde dei aulas e dirigi escola (Jardim Santa Teresa, Jardim Rodeio), mas a política não é para mim, não. É um meio muito difícil, pretendo continuar trabalhando nesse grupo junto à Defensoria Pública, no encaminhamento de mulheres que podem mudar, se quiserem. Sempre conto a minha história, uso do humor, para mostrar a elas que, assim como eu, elas podem ser o que quiserem. Digo que elas não podem se incomodar com os outros, a mulher negra deve buscar o seu espaço, e precisa se preparar para isso, não pode se melindrar, se ofender, ela tem de aperfeiçoar, aprender, melhorar sempre. Se houver outra vida, quero voltar da mesma cor, porque você dá mais valor ao que você conquista.

A Lei Afonso Arinos
A Lei Afonso Arinos, de número 1390/51 foi proposta pelo deputado Afonso Arinos de Melo Franco (1905-1990) promulgada pelo presidente Getúlio Vargas, em 1951, que proíbe a discriminação racial no Brasil. É considerado o primeiro código brasileiro a definir as contravenções penais ao preconceito de raça e cor de pele. Arinos nasceu em Belo Horizonte, foi professor, historiador e jurista.

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