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‘Ser mulher negra no Brasil é uma luta diária’, diz Camila Pitanga

Correio*
Atriz e diretora carioca é a convidada do projeto Mulher com a Palavra, que acontece nesta quinta (23)

“Ser mulher é um ato de resistência, ser mulher negra no Brasil é uma luta diária maior ainda”. A fala da atriz e diretora carioca Camila Pitanga, 40 anos, ilustra como será sua participação no projeto Mulher com a Palavra, que acontece nesta quinta-feira (23), às 20h, no Teatro Castro Alves, no Campo Grande, com mediação da jornalista e apresentadora Vania Dias.

Artista com mais de 20 anos de carreira e Embaixadora Nacional da ONU Mulheres Brasil, Camila conversou com o CORREIO de Nova York, onde participou da festa do Emmy, terça, sobre temas como  feminismo negro,  denúncias de assédio divulgadas pela imprensa e o aborto. “Ato cruel contra mulheres pobres e negras, que são as que mais sofrem com abortos clandestinos”, defende. Confira a entrevista:

As mulheres estão cada dia mais conscientes do poder de sua voz. Meu desejo, ao participar do evento Mulher com a palavra, é trocar experiências, escutar a Bahia, terra onde o ativismo de mulheres negras é dos mais inspiradores. Falar e ouvir, o fortalecimento da palavra é mútuo, tenho certeza que minha bagagem volta muito mais enriquecida.

Sabemos como é difícil ser mulher negra no Brasil, apesar das conquistas em relação à afirmação de identidade. O que pretende abordar neste evento que tem como tema Negra, Sim!?

Nunca senti tão forte a necessidade de estar junto de pessoas, de trocar ideias para a construção de um caminho mais justo e solidário para o nosso país. Como bem disse Angela Davis “as mulheres negras brasileiras têm uma história extensa de envolvimento em lutas pela liberdade”. Daí que gostaria de iniciar a conversa.

Em suas redes sociais, você se posicionou sobre o aborto e convocou todo mundo para participar do ato contra a PEC 181. Qual é sua opinião sobre o aborto?
Considero o encontro de um espermatozóide com um óvulo um verdadeiro milagre. Algo que me comove profundamente. Sou mãe, gerei em meu ventre um novo sentido para meu estar no mundo. Ainda que eu entenda e sinta a necessidade de proteger essa potência geradora de vida, não consigo entender a falta de solidariedade com mulheres que foram estupradas ou correm risco de vida. Acho profundamente injusto que homens decidam como mulheres devem lidar com seu corpo-vida. Por isso me juntei ao movimento de resistência a esse PEC nefasta que criminaliza mulheres. É um assunto sério, extenso, delicado e sensível sobre autonomia do corpo e que não pode ser decidido por uma “canetada” de homens. É principalmente um ato cruel contra mulheres pobres e negras, que são as que mais sofrem com abortos clandestinos. Mulheres que já têm o fardo de serem violentadas ou de terem suas vidas em risco merecem esse não- lugar na sociedade? Merecem ser duplamente violentadas?

“Ninguém merece essa dupla violência física e psicológica. Somos vítimas de uma sociedade machista, misógina, governada por homens que leiloam nossa liberdade em troca de poderes”

Construir um planeta com paridade de gênero e direitos para toda as mulheres e meninas até 2030 é um dos objetivos da ONU Mulheres Brasil. Como essa experiência como embaixadora te modificou como mulher?
Me sinto muito fortalecida com o trabalho que a ONU Mulheres Brasil tem desenvolvido. A possibilidade de ampliar premissas básicas como equidade de gênero e direitos para toda as mulheres e meninas até 2030 é uma necessidade, uma meta fundamental. Me sinto fortalecida quando, na ONU, estou ao lado de Taís Araújo, Juliana Paes e Kenia Maria.

As denúncias de assédio têm ganhado cada vez mais destaque na imprensa, com casos que envolvem principalmente o mundo artístico. Acha importante essas denúncias estarem vindo à tona agora?
Acho fundamental romper o silêncio. Desnaturalizar essa prática que causa tanto sofrimento. Ao longo de minha carreira tive uma situação privilegiada, isso estabelece uma proteção que pode fatalmente acomodar. Como se o assédio não existisse. Mas ouvir o relato de colegas, a partir do testemunho da Su Tonani, acendeu a necessidade de criar um tipo de rede protetora entre nós mulheres. Meu desejo é que mulheres privilegiadas como eu não se acomodem e lutem para que outras mulheres se sintam livres e respeitadas.

Como você, que tem mais de 20 anos de carreira, avalia a presença negra feminina na televisão?
Ainda estamos engatinhando nesse quesito. A televisão no Brasil completou 67 anos e só agora começamos a romper barreiras de estereótipos.

A última vez que você esteve em Salvador foi com seu pai, para lançar o filme Pitanga, certo? Qual é sua relação com a Bahia?
A Bahia traz essa conexão com a minha ancestralidade. Cada rua, cada tradição, cada pessoa, parece que carrega com ela uma história maior que a própria, mas a de gerações. Por isso é sempre tão mágico voltar à Bahia. Mesmo não sendo baiana de nascimento, me sinto em casa. Tenho uma família de primos e meu tio que fazem de Salvador uma extensão minha também. Fico feliz e honrada toda vez que preciso lançar um trabalho por aqui.

Está com novos trabalhos? O que pode nos contar? Pensa em investir mais na direção?
Acabei de voltar de uma viagem à Londres onde apresentei Pitanga em dois eventos incríveis. Me deu um gás novo para continuar investindo em futuras ideias. Não sei ainda quais, nem o quê. Pitanga é um projeto pessoal, muito pessoal, sobre meu pai, então teria que ser algo que me tocasse da mesma forma. Ainda não sei.

Qual mensagem você gostaria de passar para todas as mulheres negras do Brasil, em relação a essa luta contínua?
Resistência e união… Ser mulher é um ato de resistência, ser mulher negra no Brasil é uma luta diária maior ainda. Um lugar que não respeita nossa história e nossos corpos, ao mesmo tempo que nos violenta, também nos ensina a nos unir e fortalecer. Eu, como mulher negra privilegiada, me comprometo diariamente com essa união e sinto que esse é um momento que cresce, toma corpo e me faz acreditar em um futuro melhor pra todas nós.

Só no Portal Áfricas, “Palavras ganham voz”

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