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Brancos cometem terrorismo?

Por Washington Lúcio Andrade  | Agência Áfricas

 

Dylann Roof, de 21 anos / Foto: Chuck Burton
Dylann Roof, de 21 anos

Na última quarta (17), às 21h, um atirador branco assassinou nove pessoas negras na Igreja Metodista Episcopal Africana Emanuel localizada na comunidade de Charleston, Carolina do Sul, EUA.  Foram mortos ao todo seis mulheres e três homens, entre eles Clementa Pinckney que era o pastor da igreja e membro do legislativo estadual. O suspeito do ataque é Dylann Roof, de 21 anos, que foi preso no dia posterior ao ataque.  Apesar de Roof utilizar símbolos racistas conhecidos mundialmente – como a bandeira da Rodésia e símbolos do apartheid na África – o caso não vem sendo reconhecido como uma ação terrorista.

A ideia geral é de que o caso foi um “crime de ódio racial” motivado pelo extremismo de Roof, tudo isto não deixa de ser verdade, mas a questão vai além. O ato não fere exclusivamente a comunidade negra, como a ideia de “crime de ódio racial” propõe, mas, fere também os pilares da sociedade livre e democrática pela qual lutamos. A questão do “ódio racial” fere o princípio da liberdade, da livre expressão, da garantia da vida humana e, estas questões, dizem respeito a todos nós, brancos ou não.  O ataque a igreja na Carolina do Sul vai contra pilares do Estado Democrático e como tal deve ser considerado em sua dimensão real.

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Além do mais este não é o primeiro caso grave de racismo nos últimos anos nos EUA, e mesmo assim, cada um é visto em uma dimensão caseira, como se dissesse respeito apenas ao local em que ocorreu. Por que as mortes na revista Charlie Hebdo, em Paris, ou a bomba na maratona de Boston, tomaram rapidamente um valor de caráter nacional e, até internacional, e os casos de extrema violência contra negros provocados por brancos continuam sendo vistos como problemas locais? Por que tememos mulçumanos, comunistas, militantes do leste europeu, mas, não tememos os racistas?

Neste ano, ficou muito famoso o caso do ataque terrorista a revista francesa Charlie Hebdo, em que estiveram envolvidos dois irmãos – Saïd e Chéfif Kouachi – que tinham supostamente ligações com grupos terroristas islâmicos. O caso até hoje não foi bem esclarecido, mas bastaram apenas especulações em torno da identidade mulçumana dos irmãos para legitimar a ação da polícia francesa. O caso logo ganhou projeção internacional, pois acreditava-se que feria o direito a liberdade de expressão, ao representar um ataque de supostos mulçumanos terroristas contra um grupo de jornalistas ocidentais. O mesmo aconteceu com o ataque a Maratona de Boston, em 2013, nos EUA, outro caso pouco esclarecido, mas rapidamente classificado como terrorista dada a participação de suspeitos do leste-europeu.

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Pode se argumentar que Roof, que ganhou a arma do crime de seu pai, era um jovem com ideias extremistas em sua mente, incapaz de oferecer riscos ao país. Mas, não era também este o caso com os irmãos em Boston ou em Paris? Jovens que acolheram ideais que representam um risco a vida em sociedade, pelo seu grau de violência e intolerância. Roof apertou o gatilho de uma arma carregada de preconceitos por várias instituições racistas e segregacionistas existentes em nossa sociedade. Mas, de forma contraditória, quando um jovem branco efetua a morte de nove pessoas negras em um grupo de oração na Carolina do Sul o caso é visto como ação isolada. As ideias que nutrem a ideologia de Roof estão facilmente disponíveis pela sociedade e pela internet e, como tal, são um risco a democracia, a liberdade e a vida humana.

. Washington Lúcio Andrade

Jornalista

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